EJA DOIS PROJETOS DE SOCIEDADE E EDUCAÇÃO
Catia Regina Gomes da Silva
No segundo projeto, a concepção de educação está relacionada á vida, perspectiva de humanização e emancipação humana. Valoriza-se a experiência de vida e trabalho, a realidade cultural e social dos(as) educandos(as) , numa tentativa de construir capacidade de ler e escrever criticamente a realidade que os(as) cerca, construindo-se, portanto, sujeitos capazes de transformar-se, transformando coletivamente seu meio local para contribuir com a transformação de uma sociedade excludente em sociedade solidária. Essa é a concepção que orienta, hoje, boa parte das propostas de Educação de Jovens e Adultos.
O projeto de sociedade e de educação defendido nessa proposta busca sua essência nos saberes construídos pelas classes populares, sendo a educação enquanto prática humanizadora seu princípio norteador. A base desse princípio, de acordo com Paulo Freira, é o diálogo, fundamentado pela amorosidade, que é compromisso com todos os seres humanos.
Na proposta pedagógica desenvolvida por Paulo Freire, são valorizadas fundamentalmente, a cultura e a realidade do educando. Para Freire essa realidade é o ponto de partida para que a pessoa construa compreensão do mundo e de si mesma como sujeito da história. Segundo a concepção freireana, o trabalho pedagógico não se dá pela imposição de conteúdo, mas por uma construção do conhecimento em que o(a) educador(a) e o(a) educando(a) ensinam e aprendem ao mesmo tempo.
Nesse contexto, as histórias de vida constituem-se o elemento desencadeador e articulador de todo o processo educativo. Conforme Charlot (2000, p. 69):
Aprender sob qualquer figura que seja, é sempre aprender um momento de minha história, mas, também em um momento de outras histórias: as da humanidade, da sociedade na qual eu vivo, do espaço no qual eu aprendo, das pessoas que estão encarregadas de ensinar-me (…). Qualquer que seja a figura do aprender o espaço do aprendizado é um espaço-tempo partilhado com os outros.
Assim, desde o início, os(as) educadores(as), nos encontros de formação, vão discutindo sobre a importância de construir com os(as) educandos(as)um ambiente significativo para que essas histórias sejam trabalhadas, sendo exploradas as mais diferentes linguagens práticas de fala e escuta, música, imagens, desenhos, fotos, filmes, dança, teatro, leitura de textos diversos (poemas, biografias, letras de músicas) entre outras. Então, a escrita das histórias vai acontecendo aos poucos, e os(as) educadores(as) vão buscando estimular os(as) educandos(as)para que escrevam do seu jeito, criando um clima de confiança para que , naturalmente, discutam com os(as) colegas a questão da escrita.
O trabalho com as histórias de vida vai impulsionando a análise da realidade, uma vez que nesse contexto estão envolvidos aspectos diversos da conjuntura (local e global): trabalho, sociedade, política, economia, entre outros. Além disso essa prática vai estimulando o estudo e a pesquisa sobre as temáticas de interesse dos grupos (por exemplo: etapas da vida – infância, adolescência, velhice; relações familiares, valores, sentimentos, espiritualidade, etc.)
Nesse sentido, trabalhando com temáticas significativas para os(as) educandos(as), os(as) educadores(as) vão procurando construir com eles(as) atividades que lhes oportunizem fazer diversas relações entre as áreas de conhecimento, numa perspectiva transdisciplinar. Ao mesmo tempo, buscam oportunizar-lhes avançar no processo de alfabetização, pela variedade das situações de leitura e de escrita, tomando-se o texto como unidade de sentido, sempre.
A concepção freireana deve continuar inspirando as práticas de EJA, ainda que outros(as) pensadores(as) da Educação de Adultos busquem resignificá-lo, ou, por que não questioná-lo. Para além disso, construir práticas de EJA numa perspectiva crítica continua, ainda, sendo um grande desafio.
Na Educação de Jovens e Adultos, no Brasil, podem ser percebidos dois projetos de sociedade e educação. De acordo com Gaudêncio Frigotto (2005), no primeiro projeto, excludente, a concepção de educação está relacionada a uma visão utilitária e empresarial do saber, dentro da ideologia da empregabilidade, reduzindo o processo educativo a cursos de treinamento profissional. Nesse contexto, o objetivo é o de formar um(a) cidadão(ã) mínimo(a), alienado(a), que não pense e não exerça pressão para mudar os privilégios dos poderosos. Nessa proposta não há educação, portanto, não há educando(a) e nem cidadão(ã) – o ser humano é considerado um objeto.
REFERÊNCIAS:
CHARLOT, Bernard.Da relação com o saber: elementos para uma teoria.
Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
CIAVATTA, Maria. A formação integrada: a escola e o trabalho como lugares de memória e de identidade. In: FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria; RAMOS, Marise (Orgs.).Ensino médio integrado: concepção e contradições. São Paulo: Cortez, 2005.
FRIGOTTO, Gaudêncio.; CIAVATTA, M.; RAMOS, M. (Orgs.).Ensino médio integrado: concepções e contradições. São Paulo: Cortez, 2005



